A Macaquita de terno Background photo created by luis_molinero - www.freepik.com

Por Paulo Giacomini

“O Brasil vive uma tragédia”, declarou a Organização Mundial da Saúde (OMS) na última semana de fevereiro, porque uma segunda onda de infecção/doença/gravidade/UTI/morte se formou e cresceu rápida e assustadoramente a partir de Manaus. Era inacreditável, apesar de intuitivamente previsível. Quase ano antes, em 11 março de 2020, quando a OMS declarou emergência mundial, pois o planeta estava sob a pandemia de um novo coronavírus, era previsível, não que Manaus ou Porto Alegre, Rio de Janeiro ou São Paulo, especificamente, tivessem seus sistemas de saúde em colapso, mas o de todo o País.

A previsão intuitiva começou a ser confirmada com a saída de Luiz Henrique Mandetta da pasta da Saúde, por divergência com o estarrecedor discurso presidencial, de que aquilo era “só mais uma gripezinha” e que ele, o maior mandatário da Nação, não se abalaria, pois tinha “porte de atleta”. (Abalou-se, como os fatos estamparam em manchetes, meses depois.) Poderíamos continuar a fazer o que fazíamos até então, pois o presidente-messias estava a salvo e, consequentemente, estaríamos, todas, todos e todes, a salvo também.

Ainda no último dia do mês do carnaval cancelado, a epidemiologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcomo afirmou, em sua incansável e já costumeira participação nos telejornais da GloboNews, que o País precisa e que todxs nós precisamos “desesperadamente” de mais vacinas, muitas mais. Ela quase se desculpou antes de praticamente suplicar com a palavra, advérbio do substantivo desespero: “eu talvez não devesse dizer isso, mas o País precisa, todos nós precisamos desesperadamente de mais vacinas”.

Na primeira semana de março, a tragédia desesperada – palavra usada aqui como adjetivo da tragédia – emergiu de uma vez por todas, com o pico da segunda onda subindo em número de casos diagnosticados e em óbitos por covid-19, diariamente. Mas, os números não seriam suficientes. Já faz duas semanas que todos os dias batemos nossos próprios recordes. Na semana em que o estado de pandemia declarado pela OMS completou um ano, o Brasil do “mito” e do ministro-general da Saúde sem Logística conseguiu deixar mais de 2.300 cidadãos e cidadãs irem a óbito por covid-19 em apenas 24 horas.

Enquanto todas as nações do planeta negociavam vacinas para imunizar seus e suas contribuintes, cidadãos, consumidores e eleitores, o presidente brasileiro ordenava à Fiocruz e ao laboratório do Exército que produzisse cloroquina e negava, peremptoriamente, que a corrida da ciência por uma vacina se dava em quase todas as bordas de seu planeta plano. Quando percebeu que pela produção excessiva do medicamento sem eficácia no tratamento da covid-19 ele poderia ser enquadrado na responsabilidade fiscal, enviou ao Congresso Medida Provisória que isentava autoridades previamente por erros cometidos no enfrentamento da pandemia.

Afundada pela opinião pública, a solução foi o Ministério da Saúde validar a cloroquina em protocolo para o tratamento de covid-19 com o objetivo de desovar os estoques astronômicos. Associada a um vermicida, a ivermectina, segundo a ciência, a cloroquina é ineficaz para o tratamento da covid-19; a ivermectina, idem. Enquanto a cloroquina era desovada dos estoques, a ivermectina provocava hepatite medicamentosa pelo território nacional.

“Eu não sei, mas, minha visão leiga me leva a deduzir que o protocolo da cloroquina fere diretamente o Artigo 196 da Constituição Federal de 5 de outubro de 1988, a ‘Constituição Cidadã’ de Ulysses Guimarães”, lançou a Macaquita, interrompendo a redação. “O protocolo para o tratamento da cloroquina viola diretamente o direito à prevenção e à recuperação da saúde, direito do cidadão preconizado pela cláusula pétrea constitucional”, arrematou ela.

E, como se tivesse uma lâmina na língua para perfurar os papéis que sacodia em uma de suas patas, perguntou, como uma serpente: “você já leu a Nota Informativa nº 3/2021, do DCCI?”. O DCCI é o departamento do Ministério da Saúde (MS) responsável pelo controle das infecções sexualmente transmissíveis (IST), para onde foram deslocados o controle do HIV e da aids e das hepatites virais, junto da tuberculose e da hanseníase no governo Bolsonaro.

Na outra mão, a primata trazia o posicionamento da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS (RNP+) e a sarcástica resposta do DCCI à primeira rede de pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA) no País e insistiu:

“Você leu isso? Eles definitivamente vão dividir as PVHA em duas categorias! E vão matá-las todas de covid-19!”

“Como é? Eles quem? Como farão isso?”, perguntei num tom que oscilava entre o espanto e a indignação.

“Você tem que ler a nota pra ver a lambança que eles fazem com o CD4”, provocou a víbora. (Algumas vezes penso que a Macaquita não tem com evoluir, mas, como não sou adepto do criacionismo e não tenho base científica pra contestar o evolucionismo, afasto possíveis dogmas não científicos.)

“Leia o posicionamento da RNP+ sobre a nota e a resposta do DCCI ao posicionamento da rede! Você vai enlouquecer!”, respondeu a Macaquita quase sem respirar entre uma e outra palavra, entre uma e outra frase.

Na nota informativa nº 3, o DCCI informa que apenas as pessoas vivendo com HIV e aids com contagem de linfócitos T CD4 menor ou igual a 350 células/mm³ de sangue haviam sido eleitas para receberem as doses de vacina contra a covid-19. As PVHA que têm mais de 350 de CD4 foram encaminhadas à fila da faixa etária, ou ao final da fila. Faz sentido. Por todo o mundo, estudos com PVHA não encontraram risco acrescido ao de uma pessoa sem HIV para infecção pelo Sars-Cov-2 quando estas apresentaram carga viral indetectável e contagem de CD4 maiores do que os tais 350.

“Você enlouqueceu?”, perguntou a Macaquita indignada. “Onde foram parar suas duas décadas e meia de ativismo, apertou o F***-se? Foi curado, por acaso?”, metralhou ela, furiosa. E, olhando pra mim como se de seus olhos saísse um raio laser eliminador, sentenciou: “você realmente não está bem”, como se procurasse uma justificativa para minha aparente concordância com a nota técnica. “Qual o impacto disso? Essa inclusão nem inglês vai ver. Faça as contas, viado!” (Acho que o tempo que ficou fora a macaquita se hospedou na casa da sapata; só ela fala assim comigo...)

Em seu posicionamento público à nota, a RNP+ afirmou que desde 2013-14 a maioria das pessoas vivendo com HIV e aids em tratamento, com carga viral indetectável, não fazem coleta para a contagem dos linfócitos. À época, o então Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais, informou às PVHA que o marcador de carga viral era mais preciso e eficiente e que apenas o primeiro CD4 era necessário, ou em caso da re-emergência de detecção viral. A primeira rede brasileira de PVHA também citou as diretrizes de vacinação contra a covid-19 do Reino Unido, que inclui todas as PVHA em seu calendário, indistintamente.

Mas, foi o tom da resposta do DCCI que me deixou indignado a ponto de ficar com vontade de pegar as seis armas por pessoa e o monte de munição liberados pelo governo do Capitão Cloroquina e sair dando tiro pela janela. Quando viu minha expressão, a Macaquita não se conteve: “caiu a ficha, bicha?” Sarcástica essa primata!

O tom de ironia professoral e o desprezo do DCCI na resposta dada à RNP+ foram demais pra mim. Eu me perguntava como uma instituição do Estado brasileiro responde a um questionamento dessa forma?

Foi então que me lembrei da Vanessa Campos, a SoroposidHIVa, secretária nacional de informação e comunicação da RNP+ e colega de coluna aqui no Saúde Pulsando. Ela ainda se recupera das sequelas deixadas pela sua terceira infecção por covid-19 e, desta vez, grave. “Como estão seus exames, Vanessa?”, perguntei dia 8 ou 9 de janeiro, logo depois que ela me disse que estava a caminho ou já esperava ser atendida na Fundação de Medicina Tropical (FMT) do Amazonas.

Ela me respondeu que os exames, coletados em outubro, estavam ótimos. Eu sugeri que ela pedisse ao médico ou à médica que cuidava dela uma nova bateria de exames, a fim de refazê-los, o que foi solenemente ignorado pelx profissional de saúde. Dias depois, ela conversava com a Dra. Adele Benzaken, sua primeira médica, que a orientou a pedir à FMT nova coleta para as contagens de CD4 e carga viral. Apesar de o CD4 ter caído quase pela metade, ela continuava indetectável e acima das 350 células/mm³.

O caso de Vanessa é importante por pelo menos dois motivos: ela vive em Manaus, ou seja, está no meio do furacão, onde foi detectada a mais temida variante do novo coronavírus, a P.1, com maior poder de contágio e, possivelmente, mais grave. Infelizmente, Vanessa não tem um exame de sua primeira infecção pelo Sars-Cov-2, nem seu sangue foi submetido a um sequenciamento do vírus. Coisas do Brasil.

No começo da segunda onda foram anunciadas mais de 200 variantes do Sars-Cov-2. Mas, para a OMS, as cepas do Reino Unido, da África do Sul e a do Brasil eram as mais preocupantes. Pouco tempo depois, a autoridade sanitária mundial declarou que a P.1, a variante brasileira surgida em Manaus, era a que mais preocupava a autoridade sanitária global.

O Brasil já sabia disso. Ou melhor, a comunidade acadêmica brasileira já sabia. Em 2 de março, a newsletter da Agência Fapesp, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, trazia em manchete estudo do Centro Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), que reúne as universidades de São Paulo (USP) e de Oxford.

Conforme publicou a Agência Fapesp, “a equipe do CADDE calcula que a P.1 seja entre 1,4 e 2,2 vezes mais transmissível que as linhagens anteriores”. Estes números, no entanto, são uma aproximação de um modelo matemático. “A nova cepa é mais transmissível e pode infectar até mesmo quem já tem anticorpos contra o novo coronavírus. Foi isso que aconteceu em Manaus. A maior parte da população já tinha imunidade e mesmo assim houve uma grande epidemia”, afirmou a pesquisadora Ester Sabino (USP) à Agência Fapesp.

Com uma piscada de olhos, a Macaquita me fez lembrar que o Saúde Pulsando tinha publicado solicitação feita ao DCCI por coordenadores de programas estaduais e municipais para o controle das IST e do HIV/aids. O pedido era simples: por favor, reveja essa nota informativa. Também lembrei que alguém, um pesquisador ou uma pesquisadora, havia dito: “imagina as filas de PVHA nas portas dos serviços especializados em HIV/aids querendo fazer suas coletas de sangue para contagem de CD4? Elas têm esse direito!”.

“É, a saúde é direito do cidadão – e da cidadã – e dever do Estado”, salientou a Macaquita, repetindo o artigo constitucional. “Alguém disse que não temos vacina suficiente pra todo mundo”, acrescentou provocativa.

Numa reunião ordinária online do Foaesp, a coordenação do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids (CRT-IST/AIDS-SP), afirmou que das cerca de oito mil PVHA matriculadas, menos de 500 preenchiam os requisitos das PVHA incluídas no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a covid-19. Em um serviço especializado semelhante ao CRT na capital baiana, os números são parecidos.

Segundo o Painel Covid-HIV, disponível no site do DCCI, foram dispensados medicamentos antirretrovirais a 728.149 PVHA, sendo que 54.995 iniciaram o tratamento antirretroviral, em 2020. Representaria pouco mais de 1,5 milhão de vacinas, contando duas doses. Qual o impacto disso na tardia aquisição de vacinas pelo País?

Qual seria o impacto nos serviços se essas pouco mais de 728 mil PVHA resolvessem exigir – o que é um direito delas – que suas contagens de CD4 fossem feitas? Temos disponíveis 728.149 kits para realizar esses exames? Duvido. Não acredito que tenhamos 1/3 deles à disposição.

“Não tem vacina!”, bradaria um bolsonarista. “E as PVHA pagam o pato por que o governo Bolsonaro preferiu investir o dinheiro dos impostos de brasileiros e brasileiras na cloroquina, que só serve mesmo pra malária?”, pergunto eu, em resposta ao suposto bolsonarista. Mas isso não serviria pra nada. Bolsonaristas estão sob a influência das fake news difundidas pelo gabinete do ódio montado pelos filhos do presidente.

“O que você vai propor?”, pergunta a Macaquita, curiosa. “Quem sou eu pra propor alguma coisa, criatura? Está tudo aí”, quase berrei, de tão nervoso que estava. Em seguida, cedi à proposição símia e argumentei: “se as PVHA com CD4 maior que 350 células/mm³ têm a mesma resposta à covid-19 que uma pessoa sem HIV; se a variante P.1 tem de 1,4 a 2,2 mais virulência que o vírus original, com maior poder de disseminação e de agravamento do quadro clínico da pessoa infectada, sua dedução está certa: podemos morrer todxs por covid-19 porque o governo apertou o F***-se para as PVHA”, sublinhei desolado.

Quem ler a coluna certamente vai tirar uma conclusão. A minha é de que todas as PVHA deveriam ter acesso à vacina contra a covid-19 no calendário das comorbidades. Afinal, estamos incluídos em outras imunizações cujos agravos têm menor risco de morte.

Estamos nós, as pessoas vivendo com HIV e aids tão desesperadas com medo da variante brasileira quanto a OMS está apreensiva com o Brasil.

“Diário da Macaquita”, por Paulo Giacomini
Jornalista, começou criando o jornal da empresa em que trabalhava. Da faculdade foi direto pra Coluna Gay da Revista da Folha, da Folha de S.Paulo, onde colaborou com Poder, Esporte, Turismo e Ilustrada. Trabalhou na G Magazine, fez cobertura de carnaval pra Coluna do Gugu e ajudou a criar OFuxico. No movimento de aids, escreveu, editou, fotografou, produziu e deu forma a diversas publicações. Fez especialização e mestrado em Informação e Comunicação em Saúde no Icict/Fiocruz e foi Secretário de Informação e Comunicação da RNP+BRASIL. Vive com HIV/AIDS desde 1984. É diretor de Saúde Pulsando.


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