
Direto do túnel do tempo, com Gabriela e amigues, 2010
Se a segunda-feira foi como uma corrida de Fórmula 1, a terça-feira amanheceu enquanto aguardava o texto da primeira Vozes da Prostituição, coluna que a antropóloga Elisiane Pasini passa a escrever diretamente da França para Saúde Pulsando.
Pouco mais de 10 da noite da segunda e fui dar uma deitadinha pra descançar. Eu já tinha uma reportagem especial da Alemanha me esperando no e-mail e a coluna da Lis para revisar. Acordei perto das 2h30 da manhã. Fiz um café e fui revisar a coluna. Em seguida, publiquei a brilhante reportagem do jornalista competentíssmo e grande amigo Flavio Lenz e fiquei esperando a coluna de volta. Ia demorar; pensei em dormir um pouco mas fiquei com medo de não acordar. É, talvez fosse interessante por o despertador. O problema é que já houve dias de o despertador tocar, amigo ligar e eu simplesmente não acordar. Foi melhor não dormir.
Esta edição do Diário da Macaquita começou a ser escrita quando desisti de atualizar a anterior. Porque algumas coisas precisavam de clareza. Quando a coluna definitiva chegou a terça-feira amanhecia e fui para os ajustes finais. E a terça-feira embalou tão intensamente no trabalho que agora é a suposta hora do almoço da quarta-feira quando retomo a atualização que virou nova postagem, mas que é refeita mais uma vez.
Primeiro, faltou dizer que tanto o Diário da Pandemia – crônica da vida em pandemia, como talvez dissesse Nelson Rodrigues – do Draurio Barreira, quanto a coluna do Zé Simão para a Folha de S.Paulo são inspirações para este Diário – que vai mudar de nome pra Coluna – da Macaquita.
Macaquita é como me chamava Vando Oliveira – a quem chamo de Cangaceira, eventualmente com sobrenome genital – quando percebia que eu estava atazanado ou ele mesmo queria me atazanar. E olhe que não tomo atazanavir – durante nosso primeiro mandato na Secretaria da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS, a RNP+BRASIL. Fomos três por quase dois mandatos de dois anos: o Vando na Articulação Política, o ZéHélio Costalunga na Executiva e eu – ou a Macaquita –, na Comunicação. Teríamos terminado dois mandatos – recorde histórico – se a Cangaceira [atenção, aqui havia um adjetivo que foi devidamente autocensurado] não tivesse, por birra, picuinha, ou talvez orgulho, deixado a secretaria nacional da RNP+ cerca de oito meses antes de terminarmos o segundo mandato, pelas minhas contas. Durante três anos e quatro meses dividimos a tarefa de conduzir os processos políticos, executivos e comunicacionais da RNP+. E se eu fui uma espécie de porto seguro para o Vando, o Zé era pra mim um porto mais que seguro. O Zé ancorava, era o ponto de equilíbrio daquela secretaria. Que felizmente, como tudo na vida, passou.
Vando me disse porquê deixou a secretaria. Mas isso não vem ao caso agora. Depois que eu e o Zé passamos a secretaria da RNP+ a nossos sucessores eleitos retomamos nossa amizade. Atualmente, tenho dito que São Paulo e Ceará são vizinhos. Tanto, que quando eu quero alguma coisa da secretaria é Vando quem vou atazanar. Isso é bom, prova que não tenho absolutamente nenhuma influência sobre as pessoas que indiquei à secretaria nacional da RNP+. Sou quase um filho de Bolsonaro, porque qualquer zero à esquerda é nada.
O Zé se foi na véspera do Dia Mundial de luta contra a aids. Eu o chamava de vó. Eu amava a mãe da minha mãe, a minha avó cearense, ainda mais do que amava a minha mãe. Hoje já acho que não. Nos últimos meses de vida Zé lutou contra um câncer que o tirou de nós às vésperas do Dia Mundial de luta contra a aids do ano passado. Ô ano, viu? Na última vez que falamos, ele me disse que estava tranquilo com o que podia acontecer. Agora, à frente do Saúde Pulsando, não têm sido raras as vezes que me deparo perguntando o que o Zé me diria.
O site é uma homenagem à minha mãe, todo mundo sabe. Ela vivia me dizendo pra eu parar de me expor na mídia, pra deixar o movimento social de aids, pra eu ir trabalhar na minha profissão. Ela não queria que eu a buscasse na feira. “Por que, mãe?”, eu perguntava. Até que um dia ela me respondeu: “pra não ser associada a você”. Minha mãe tinha sérios problemas. Fazia mais de dez anos que ela sabia que precisava tratar a tireoide. Em seus últimos dias ela estava doidinha. Muito.
Ontem, durante todo o dia eu senti Gabriela Leite muito próxima, como estávamos nesta foto de dez anos atrás quando comemorei, na casa dela, meu aniversário de 48 anos. Eu morei na casa de Gabriela e Flavio no Rio, no período que fiz o mestrado no Icict/Fiocruz. À noite, enquanto atualizava a matéria sobre o primeiro material de comunicação em alusão ao Dia Internacional da Prostituta ela simplesmente veio para o texto. Como o título dizia que era da memória ao presente, eu a deixei entrar e o texto fluiu.
Nesta terça-feira, 2 de junho, eu senti a mesma adrenalina de quando sentei à mesa do editor de esportes da Folha de S.Paulo, em dezembro de 1997, para escolher quais trechos da entrevista com o jogador Vampeta que seria publicada pela G Magazine no mês seguinte estariam no jornal dois dias antes de o Corinthians ganhar o campeonato brasileiro daquele ano.
Obrigado, mãe. Obrigado, Zé. Obrigado, Gabriela. Amo vocês, demais!
“Diário da Macaquita”, por Paulo Giacomini
Jornalista, começou criando o jornal da empresa em que trabalhava. Da faculdade foi direto pra Coluna Gay da Revista da Folha, da Folha de S.Paulo, onde colaborou com Poder, Esporte, Turismo e Ilustrada. Trabalhou na G Magazine, fez cobertura de carnaval pra Coluna do Gugu e ajudou a criar OFuxico. No movimento de aids, escreveu, editou, fotografou, produziu e deu forma a diversas publicações. Fez especialização e mestrado em Informação e Comunicação em Saúde no Icict/Fiocruz e foi Secretário de Informação e Comunicação da RNP+BRASIL. Vive com HIV/AIDS desde 1984. É diretor de Saúde Pulsando.
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