
A criança, o santuário e o arco-íris. Ilustração: Silvia Holme
Por Jean Carlos de Oliveira Dantas
“A vida está
dentro da vida
em si mesma circunscrita
sem saída...”
Ferreira Gullar, in Toda Poesia
As pipas colorindo o céu daquela tarde de primavera prenunciavam os passos dos fiéis ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, numa velha cidade do nordeste paulista. Naquele domingo iniciava-se a novena, marcada pela fé, resignação e jejum para purificação da alma dos milhares de católicos crentes de sua fé.
No Santuário, os bancos estavam vazios e o vento passeava pelas imagens de devoção, quando Yôhãnãn chegou para verificar se tudo estava de acordo com o planejado e acertado com Padre Albyno, que iria presidir a cerimônia.
Para aquele domingo, foi combinado com Padre Albyno que na homilia da missa das 18 horas, ele iria tocar num tema muito caro para toda sociedade: a discriminação contra as pessoas vivendo com HIV/aids, pois era o primeiro dia do mês de dezembro – Dia Mundial de Luta Contra a Aids.
O jovem Yôhãnãn, ansioso por natureza, pois além de ser profissional de saúde, também era uma pessoa vivendo com HIV/aids. Assim sendo, nosso anfitrião desta prosa era o propositor e o objeto daquela ação humana que estava prestes a ser consagrada entre santos e humanos.
De volta à porta do Santuário, Yôhãnãn encontra a correr pela calçada Santiago, uma linda criança de 8 anos, com jeito de moleque travesso que habita a alma de todo menino, pois todo menino é um rei, já cantava Roberto Ribeiro.
Santiago, ficou na porta para se proteger da chuva passageira, que logo fez as pipas sumirem do céu para dar lugar a um lindo arco-íris. Neste momento Yôhãnãn percebeu umas manchas no corpo do menino e perguntou:
- Santiago, o que são estas manchas nas suas costas e barriga?
- São umas manchas que a minha Tia Duda tem no bumbum.
Yôhãnãn, era amigo da Tia Duda e, numa rápida associação, percebeu que aquelas manchas eram consequências da Herpes Zóster, um sinal de que a saúde do nosso menino não andava muito bem.
Santiago era filho de uma mãe jovem, que sem condições para manter a sua autonomia, morava com os pais do seu ex-marido, que por sua vez, suportavam a sua presença por causa do menino. A situação familiar gerou desilusão à mãe, que abandonou a si mesma e ao seu filho, não provendo os cuidados necessários para viver a cronicidade da aids.
A aids pode ser considerada uma doença crônica, desde que a pessoa tenha condições de acessar todos os serviços e bens materiais e imateriais estratégicos para a manutenção do seu bem-estar. Apesar deste conceito, trata-se de uma cronicidade diferente daquela encontrada no diabetes, asma, doença pulmonar obstrutiva crônica e doenças cardiovasculares, entre outras, pois carrega em si todo peso do estigma e discriminação, daí a importância do ato que aconteceria naquele dia no Santuário.
Voltando aos nossos amigos, Santiago falava para Yôhãnãn, como era bonito e forte o carrinho de madeira que ganhou do seu pai e, sem se despedir saiu correndo puxando seu caminhão pela calçada do Santuário. Aliás, aquela igreja era uma extensão da sua casa que ficava na rua de trás, pois a todo momento ele adentrava correndo pelos seus corredores para tomar água e usar o banheiro.
A missa começou no Santuário irradiado pelo arco-íris, que insistia em não deixar o céu e as pessoas foram se juntando aos santos e a sua fé, num cumprimentar elegante, pois em cidade de interior todo mundo se conhece e a missa de domingo é um evento social.
Os sinos dobraram anunciando a voz de Padre Albyno, que iniciou sua reflexão convidando todas as pessoas a se voltarem àquela data tão especial, que tinha sido criada pela Assembleia Mundial de Saúde, em outubro de 1987, com apoio da Organização das Nações Unidas – ONU. O Padre, nos confessou que a data é um lembrete para chamar a sociedade à consciência pois deve-se reforçar a solidariedade, o respeito, o diálogo, o afeto a compaixão a todas as pessoas que vivem com HIV/aids.
No momento que a igreja recebia os significados da compaixão entre os filhos e as filhas do Divino, Santiago passou correndo pelo corredor em direção ao altar, se desviando do Padre e sumindo por trás das cortinas vermelhas cor de sangue posithivo.
O menino e toda sua alegria infantil, voando livre com sua liberdade descalçada de chinelos e camisetas, se integrou àquela homilia dando significado àquele momento.
Todo momento é carregado de nós mesmos, por mais que nossa ilusão humana não nos deixe perceber os seus significados.
O Padre Albyno caminhava para o final da missa quando convidou as crianças para se sentarem em cadeiras que estavam postas uma ao lado da outra no altar, pois queria celebrar o amor do Divino pelas pessoas e, nada mais significativo do que os infantes para demonstrar o Seu afeto. As cadeiras foram preenchidas por todas crianças limpas, bem vestidas e penteadas, porém a cadeira que ficava ao centro não foi ocupada e, num piscar de olhos e magia, Santiago ocupou-se daquele lugar com toda sua magia de anjo danado. Nosso príncipe estava suado, sem camisa, despenteado, descalço e radiante de felicidade curiosa e participativa.
A presença de Santiago no Santuário fez Yôhãnãn se emocionar, pois a criança expressava toda resistência daquelas pessoas que vivem com HIV/aids, que são deixadas à sua própria sorte devido a discriminação cega e alienante produzida pela mesma sociedade que se ajoelha aos olhos de Deus.
Santiago era o filho de todas mães e pais que vivem com HIV/aids, que por consequências que não nos cabe julgar, não conseguiram cuidar de si mesmos e de sua prole devido às sequelas causadas pelo medo, discriminação e estigma em vossos corpos e almas, que também foram produzidos pela história da epidemia de HIV/aids.
A liberdade de Santiago, correndo no Santuário naquela tarde presenteada por um lindo arco-íris, é uma das belas traduções do sentido da vida.
“Berggasse, 19”, por Jean Carlos de Oliveira Dantas
Jean Carlos de Oliveira Dantas, é psicólogo.
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